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edição de 10 de junho de 2019

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STORYTELLER O prefeito

STORYTELLER O prefeito é doido Tudo parecia banal até que alguém se lembrou que o prefeito da cidade, César Maia, era chamado de louco RapiEye/iStock LuLa Vieira Algo me diz que eu já contei esta história. Mas eu tenho dois grandes defeitos: memória e arquivos completamente bagunçados. Algumas vezes eu começo a relembrar de coisas para os amigos e minha mulher reage: “Outra vez?” Os mais generosos fingem nunca ter ouvido ou dizem querer ouvir de novo, gestos de extrema gentileza e, principalmente, piedade. Em ambos os casos, agradeço. Parodiando o imortal Costinha, deixa eu interromper a história para contar outra. Um amigo uma vez deu como exemplo de finura e delicadeza a reação de um sujeito que numa festa abriu a porta do banheiro e se deparou com uma senhora sentada ao vaso. Sua reação foi imediata. Disse com voz segura: “Perdão, cavalheiro” e fechou a porta. Eu daria um braço para ter esta presença de espírito. Voltando ao caminho que vinha vindo, não sei se já contei a história da campanha que fizemos para a Associação dos Shopping Centers do Rio de Janeiro. Se contei já faz tanto tempo que nem eu me lembro de tê-lo feito. Então vamos lá. A nossa agência atendia a conta do mais charmoso shopping do Rio à época, o Fashion Mall, e por este motivo fomos convidados a apresentar uma sugestão de campanha para uma liquidação conjunta que todos os shoppings iriam fazer, com a intenção de aumentar o movimento que andava meio caído. A ideia era da Associação dos Shoppings do Rio e foram convidadas a participar da concorrência as agências que atendiam os associados. Além da grana muitíssimo bem-vinda, todo mundo queria fazer uma campanha que fizesse sucesso. Nós promovemos um brainstorming com direito a palpite de todos. Tínhamos a pretensão de inventar algo novo, revolucionário. Como toda a reunião desse tipo, as primeiras ideias eram completamente insanas. Surgiram sugestões de se fazer um concurso dando como prêmio um jacaré vivo, um apartamento na Praia Grande, em São Paulo, ou 200 quilos de maçanetas de Kombi. Também se cogitou em fazer concurso de strip-tease nas praças de alimentação, sexo grupal e cerimônias ecumênicas. “Troque seu guarda-roupa e salve sua alma no mesmo dia” era um dos títulos pensados para a promoção. Tudo parecia banal até que alguém se lembrou que o excelentíssimo senhor prefeito da cidade, César Maia, era chamado de louco pelos adversários políticos. De fato, o nobre alcaide parecia não bater bem. Foi uma época que ele entrou em joalheria e pediu sorvete, só vestia jaqueta em pleno verão carioca e quase afogou uma velhinha na praia. Achamos que poderíamos chamar o prefeito para ser garoto-propaganda e batizar a promoção de Liquidação Maluca. Rimos muito do absurdo. Mas, como fui eu o engraçadinho dono da ideia, alguns puxa-sacos começaram a achar que a sugestão não era tão imbecil. Até porque era impossível. Mas com o tempo se chegou à conclusão que, se houvesse a menor possibilidade de realizá-la, seria genial. Pensando bem, o absurdo não era total, pois seria para o bem do comércio da cidade e, de certa forma, admitir uma dose de loucura poderia parecer simpático ao prefeito. Provando que loucura pode ser contagiosa, criamos as peças todas, com fotos de arquivo, e pedimos uma audiência com César Maia. Tudo era, realmente, coisa de doido. Tinha anúncio onde ele dizia que era “louco pelo Rio” e comerciais de TV nos quais ele garantia que “só maluco fica de fora desta liquidação”. E, democraticamente eleito pelos queridos colegas, como homenagem à minha capacidade de criação, me encarregaram de apresentá-la ao César Maia. E eu fui. Na sala de espera tive certeza que ia apanhar do prefeito. E, ainda por cima, preso por desacato. Mas, reuni coragem e mostrei a campanha, preparado para sair correndo caso a reação de César fosse a mais normal. Pois para minha surpresa e alívio, César não só aprovou como achou que o tema seria ótimo para sua imagem. Chamamos a produtora e naquele dia mesmo o filmamos na sala de trabalho. Ele chegou a improvisar, dizendo que ia comprar uma jaqueta nova. Levamos tudo pronto para a concorrência e – evidentemente – até as outras agências acharam que não podia haver nada melhor. Quando a campanha foi ao ar, tivemos primeira página em todos jornais do país, explodimos em todas as mídias e não se falou de outra coisa na cidade. O prefeito afirmando “depois dizem que o maluco sou eu” deve ter aparecido no mundo inteiro. Foi sucesso de vendas e de votos para o César Maia, que foi reeleito. Uma prova de que às vezes há loucuras que vêm para o bem. Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa e da Approach Comunicação, radialista, escritor, editor e professor lulavieira.luvi@gmail.com 26 10 de junho de 2019 - jornal propmark

inspiração o maior dos ensinamentos “Conhecimento nunca é demais. Ele não ocupa espaço. Quanto mais você o adquire, mais espaço tem para novos conhecimentos” Foto AleksandarNakic/iStock RicaRdo infoRzato Especial para o PRoPMaRK Meu pai era um homem admirável. Filho de lavradores que viviam em Mirandópolis, interior de São Paulo, e nascido em família humilde, aprendeu desde pequeno a superar as dificuldades da infância pobre: começou criança a trabalhar e compreendeu ainda jovem que só vence quem fortalece seu caráter, seu entendimento do mundo e sua capacidade de raciocínio. Tomou gosto pelo estudo e adquiriu um elevado nível cultural. Percebeu que precisava sair de onde estava para perseguir seus sonhos. Sozinho, deixou a família e rumou para a capital paulista apenas com uma mala e um objetivo: vencer. E assim o fez. Formou-se em três faculdades (enfermagem, psicologia e administração hospitalar), tornou-se professor e construiu uma brilhante carreira no Hospital das Clínicas da FMUSP. Ah, como tinha orgulho de andar ao seu lado pelos corredores do HC e ver como as pessoas o admiravam! Meu pai alcançou suas conquistas porque, essencialmente, se esforçou para construir um caráter exemplar e um vasto conhecimento de incontáveis áreas, sempre com muito amor por aprender. Quando constituiu a sua família, todo esse ímpeto ganhou novo sentido: dar a melhor educação e formação aos seus filhos. E isso era bastante perceptível para mim e para os meus irmãos. Enquanto outros pais esbanjavam dinheiro em futilidade ou adquirindo bens para ostentar, meu pai optava em focar no fruto de seu trabalho para nos dar uma vida sem sobressaltos na infância. Em contrapartida, era muito exigente conosco nos estudos, mas sempre com amor. Certa vez, por volta de meus nove anos de idade, ouvi aquele que considero o mais sábio de todos os seus ensinamentos: “Ricardo, nunca deixe de estudar. É preciso aprender sempre! Conhecimento nunca é demais. Ele não ocupa espaço. Quanto mais você o adquire, mais espaço tem para novos conhecimentos. Nunca se esqueça disso”. Na profissão que escolhi e em toda a minha vida, meu repertório cultural e o conhecimento que tenho são meus maiores diferenciais e o combustível que impulsiona a minha carreira. Ser publicitário é conseguir aliar sua visão de mundo com os dados obtidos na observação do mercado de seu cliente e, com isso, desenvolver estratégias, insights, campanhas, o que for, de forma a atingir um objetivo, tornar memorável um projeto e obter rentabilidade e retorno para o cliente. E como isso é possível? Basicamente, a partir do momento em que você desenvolve um repertório capaz de dar os insumos necessários para o desenvolvimento de seu trabalho. No meu caso, a semente disso está naquele simples conselho paterno que recebi: “Conhecimento nunca é demais”. Hoje, profissional que não tiver a cultura do estudo e do aprendizado contínuos corre risco enorme de ficar ultrapassado e, com perdão do trocadilho, ser riscado do mapa. As novas tecnologias e as revoluções sociais que elas trazem exigem que estejamos em constante estado de aprendizado. Assim como o corpo só entra em forma e vence o sedentarismo com muita dedicação e rotina de treinos físicos, também precisamos treinar o intelecto para estarmos aptos a aprender continuamente. De igual maneira, o mais difícil para quem deixou de treinar é voltar a se exercitar. O corpo dói, a vontade falha e, se não tiver força de vontade, a pessoa invariavelmente desiste. Isso também ocorre com quem para de estudar e se deixa levar pela correria do dia a dia: a pessoa desaprende a aprender e abandona os estudos. O resultado é um profissional que pouco a pouco perde qualificação e passa a não mais responder às necessidades do mercado, tornando-se ultrapassado, até ser substituído e não encontrar mais espaço na profissão. Infelizmente, esse é o tipo de profissional de marketing que mais tem se proliferado ultimamente. Vejo isso com profunda tristeza, pois essas pessoas simplesmente serão atropeladas pela seleção natural do mercado. Estudar e aprender são atividades que precisam ser continuamente treinadas. Eu não me coloco à parte dessa realidade. Invariavelmente me questiono se o que sei em minha profissão é ainda suficiente para responder com excelência às necessidades das empresas que me contratam. E, se percebo que há entre as minhas habilidades algum tipo de deficiência, procuro logo resolver essa questão por meio de aprendizado de alta qualidade. É nessas horas que sinto o meu pai tão vivo e presente, como se ele estivesse em minha frente. E mesmo ele tendo partido para Deus há quase 30 anos, ainda ouço a sua voz me dizendo: “Conhecimento nunca é demais, meu filho. Lembre-se sempre disso”. É, meu pai... Eu sempre me lembro! Ricardo Inforzato é diretor de Planejamento e Estratégia da agência de Marketing Pílula Criativa jornal propmark - 10 de junho de 2019 27

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