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edição de 15 de abril de 2019

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inspiração Ambiente

inspiração Ambiente plural “Pensando no trabalho em si, o papel de quem lida com construção de marcas agora é muito mais interessante do que era há poucos anos” Daniele Marques Especial para o PROPMARK Um episódio de 2005 me veio à cabeça quando me chamaram para escrever sobre este tema, uma palestra do Wilson Mateos. Não me lembro do conteúdo, mas na hora das perguntas veio aquela inevitável sobre inspiração e processo criativo. Ele respondeu na lata: quanto mais boletos, mais criativo eu fico. Quebrou mitos. Não era o que ninguém queria ouvir, mas achei representativo demais. Do alto do palanque, Wilson me deu algo com o que me relacionar, já que em breve eu também teria de me virar para pagar os meus boletos. Se isso não é inspiração, não sei o que é. Ainda em Brasília, eu e outras amigas da criação ouvíamos a lenda de mulheres que estudaram na nossa universidade e estavam construindo carreiras interessantes: Joanna Monteiro e Ana Castello Branco. Falava-se delas como se fossem unicórnios. Eram mais como tigres albinos, bem raros, mas com provas irrefutáveis da existência. Em São Paulo, logo no meu segundo emprego, tive uma chefe, sócia da empresa. Só conseguia pensar “que legal uma mulher no comando da criação”. Senti esse encantamento por todos os dias nos 3 anos em que trabalhei com a Suzana Appelbaum. Quem menospreza o valor da representatividade, provavelmente sempre foi representado onde importava. Há pouco tempo fui mediar uma conversa com a Rachel Maia, uma das poucas CEOs negras no Brasil. Da plateia,... veio uma pergunta mais ou menos como a que fizeram pro Wilson anos atrás, e ela respondeu sem piscar. “O que me move é sentar na cadeira da liderança”. Pausa dramática no evento fechado só para mulheres. Ver uma mulher dizendo que nasceu para comandar o barco é poderoso demais. A gente precisa de mais declarações assim para se inspirar. Pensando no trabalho em si, o papel de quem lida com construção de marcas agora é muito mais interessante do que era há poucos anos. As pessoas esperam que as empresas produzam impactos sociais positivos. E têm ferramentas para cobrá-las disso. Há algumas semanas, uma grande rede de petshop parou de comercializar animais por pressão de uma ativista e seus seguidores. As possibilidades são infinitas e existe muito espaço para realizar, mesmo longe dos modelos tradicionais. O Papel e Caneta publicou uma lista de pessoas e iniciativas provando isso. Para quem gosta de resolver problemas, pouca coisa inspira tanto quanto a necessidade de transformação. Também acredito que o fazer sempre vai ser mais recompensador do que o pensar. E este presente a tecnologia nos deu. Hoje é viável colocar uma ideia na rua sem uma grande estrutura por trás. A revolução dos creators mostra isso. Funciona para o bem e para o mal. E mesmo quando vai mal, volta cheio de aprendizados. Por muitos anos, achei difícil encontrar inspiração dentro do trabalho. Acreditei que essa mágica que nos alimenta só existia do lado de fora. Viajando, vivendo, fazendo tudo que todo mundo sabe que traz inspiração. Hoje não acho mais que se limite a isso. Trabalhar com pessoas diferentes, que me desafiam, me questionam e me ensinam sobre trabalho e sobre a vida, de maneiras que eu jamais aprenderia se elas não estivessem tão dispostas a me emprestar seus olhos e seus sapatos, faz toda a diferença. Participar de um ambiente plural, onde todo mundo quer e pode ser ouvido, é a mais inspiradora das viagens. Daniele Marques é sócia e CCO da agência Bold 22 15 de abril de 2019 - jornal propmark

STORYTELLER stevecoleimages/iStock Piove, governo ladro! O governador sumiu. O prefeito garante que “na próxima” estará preparado Lula vieira Silvana, no dia 8 de abril, foi fazer uma reunião em São Paulo. Por volta do meio- -dia me telefonou avisando que tudo tinha sido ótimo e ela estava a caminho do aeroporto. De meu lado, relatei uma leve chuvinha nada preocupante. Beijos, beijos. Do meu escritório eu via as nuvens sobre Niterói e um bolo de algodão negro rodeando as montanhas do Rio. Os bichos, sobretudo os que voam, por milênios de sabedoria acumulada, agiam como se pressentissem o que ia acontecer. Não procuravam abrigos, ou não pareciam fazê-lo. Mas voavam tontas, piando, grasnando, pipilando, fazendo todos os barulhos que os dicionários registram. Cachorros e gatos, já meio humanos, pressentiam alguma coisa estranha, mas séculos de convivência conosco já os tornaram um pouco menos sábios e se sentiam inquietos sem saber bem por quê. Pouco depois, o mundo acabou. Mais tarde se soube que há décadas não caía tanta água. A cidade, despreparada, parou. Dos morros, orgulho e glória do Rio de Janeiro, desciam pedras, lama, casas, lixo. Monumento à inépcia, a ciclovia à beira do mar teve um pedaço levado pela lama. Uma ironia. Um prefeito a construiu e se esqueceu da força das águas de baixo para cima. E um dia ela ruiu exatamente pela força das ondas. Seu sucessor consertou um pedaço e fez um filme dirigindo um trator por ela. Mas se esqueceu da força da lama vinda de cima e pelos lados. E lá foi outro naco. Dizem que Tim Maia, em cuja memória a ciclovia foi batizada, numa sessão espírita, do seu jeito gentil e carinhoso, já mandou avisar que... bem, deixa pra lá. Como a gente dizia quando criança, não se deve meter a mãe no meio. Eu, que divido a rua com os fundos da casa do finado Roberto Marinho, felizmente não perdi nada. A não ser a rua. O que era antes a ladeira que dá acesso ao Cristo Redentor é hoje uma cratera. Montes de paralelepípedos se amontoam junto às paredes das casas. A tampa do bueiro da entrada de minha garagem se foi para nunca mais. E eu me considero um cara de sorte, ao ver a cidade pela TV. Outros cariocas perderam as coisas que juntaram durante a vida. Não há nada mais exposto que uma casa invadida ou semiderrubada. Aquilo que deveria ser da mais absoluta intimidade, a fronha do Mickey, o coelho encardido sem o qual a criança não dorme, a TV de tubo, fica exposto na nudez mais vexatória que pode existir. Não há como manter a dignidade diante da mesa de fórmica coberta de plástico e cheia de lama. Um guarda-roupa depois que sai do estado de loja, deve ser preservado como um penico. É íntimo como gostar do cheiro do próprio peido. E as entranhas da casas ficaram expostas como um grito de angústia. Enquanto isso, me envergonho da pequenez de meu drama particular. Os aviões com destino ao Rio têm seus voos suspensos e Silvana fica, juntamente com uma multidão, em Congonhas, sem saber de nada, só ouvindo boatos e não acreditando em mim quando garanto que, até onde eu sabia, a nossa casa continuava de pé, ainda que nossa cozinheira estivesse desaparecida. Antes de fazer suspense: simplesmente não conseguiu sair da casa dela. O governador está sumido, provavelmente fazendo um curso de tiro especializado para acertar “só na cabecinha”. O prefeito, depois da cidade inundada, chama os terceirizados da prefeitura para fornecerem seus caminhões. Ninguém chega. Por quê? Estava uma puta chuva, porra! Isso antigamente era piada de português. Hoje é tragicomédia de carioca, pois os portugueses estão mais preocupados em cuidar da multidão de imigrantes brasileiros que estão chegando dispostos a “fazer a Europa”. O gerente do cinema de um shopping fecha as portas para que crianças não venham sujar o lugar, tentando se abrigar na sala de espera. Ao lado, uma casa de show (Blue Note) faz exatamente o contrário e franquia suas instalações para quem não podia ir pra casa. No fim da tarde há um hiato na chuvarada e os aviões começam a descer. Silvana chega em paz. O motorista do Uber dirige cuidadosamente entre os escombros e ao chegar em casa ajuda com as malas subindo as escadas. Vejo na TV centenas de pessoas sendo acolhidas por igrejas, casas de amigos e até desconhecidos. O governador sumiu. O prefeito garante que “na próxima” estará preparado. Espero sinceramente que não precisemos. A expressão “piove, governo ladro” era muito usada por minha avó e na linguagem dela queria dizer mais ou menos: “chove, governo ladrão!”. Governo ladro ela usava para tudo. Era anarquista. Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa e da Approach Comunicação, radialista, escritor, editor e professor lulavieira.luvi@gmail.com jornal propmark - 15 de abril de 2019 23

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