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edição de 24 de dezembro de 2018

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inspiração Doutor

inspiração Doutor Sully, meu avô, e Dinho “Não sei se nada disso te inspira, mas, de minha parte, só posso te desejar boas histórias e terminar esse texto sem um ponto final” Mateus Braga Especial para o PROPMARK meu avô, o doutor Sully, é uma inspiração para mim. Um cabra que veio do O Norte, mais precisamente de Belém, e que, há muitos anos, depois de migrar para o Rio de Janeiro, chegou em Brasília ainda na fase de construção da nova capital. O ano era 1957. Em meio à terra vermelha, aos caminhões para lá e para cá, à poeira intensa no ar, doutor Sully comia o pão que o diabo amassou e cuspia tijolo todas as manhãs. E, assim, ele fez parte da construção da cidade que eu amo. Fez uma família inteira acreditar no sonho dele e de JK. Lutou, venceu e, infelizmente, faleceu no dia do aniversário da cidade, 21 de abril. Foi quase um combinado, um feriado para que todos pudessem fazer uma despedida especial para ele. Para mim, foi uma das pessoas mais criativas do mundo, cuja história de vida gostaria que inspirasse mais pessoas além de mim. Outro exemplo de pessoa que me inspira vem de fora da minha família. Uma amiga em comum nos apresentou, e, a partir daí, o Anderson França, mais conhecido como Dinho, um jovem idealista, se tornou uma fonte de inspiração para mim. Conheci Dinho como um morador da Maré, no Rio de Janeiro, querendo construir uma agência digital na favela para impulsionar os moradores com conhecimento e também colocar a comunidade em um outro nível de comunicação. “Que cara doido!”, pensei. “Ele está querendo mudar o mundo a partir de uma comunidade, isso só poderia acontecer no cinema”. A conversa foi impressionante, papo bom, ideia fora do comum. Eu me propus a ajudá-lo. Pouco tempo depois, Dinho encontrou realmente a sua vocação, ele começou a escrever. O seu primeiro texto fez sucesso no Facebook, tinha o título O dia em que fui no Olympe, no qual ele narra, com uma acidez que lhe é peculiar, a visão de um suburbano em um dos melhores restaurantes do mundo. Ele explodiu, empreendeu, fez sucesso, escreveu livro e hoje é um dos roteiristas da Rede Globo. Dinho é o cara mais corajoso que eu conheci na minha vida, e só anos depois tive a coragem de dizer isso para ele pessoalmente. Pensando na força do meu avô e na coragem do Dinho, me dou conta de que o que realmente me inspira, na verdade, são as pessoas. As suas histórias, que narram batalhas, enfrentamentos e conquistas. A vida me faz pensar que o que existe de mais valioso é aquilo que podemos levar para a cadeira de balanço. O mundo é um universo de histórias possíveis e, a cada manhã, escolhemos algumas delas para viver. Relembrando as batalhas, enfrentamentos e conquistas desses dois personagens da minha história, me dou conta de que o que realmente me inspira são as pessoas e as suas histórias Não sei se nada disso te inspira, mas, de minha parte, só posso te desejar boas histórias e terminar esse texto sem um ponto final. Mateus Braga é diretor-executivo de criação da Isobar Brasil 28 24 de dezembro de 2018 - jornal propmark

STORYTELLER Nastco/iStock Por um novo Noel Comigo as crianças descobrem que o bom velhinho é uma peta inventada pela família LULA VIEIRA Toda vez que fui Papai Noel não deu certo. Acho que por ser gordo e barbudo, as pessoas acreditam que tenho vocação para passar-me por Saint Klauss, vestir-me de vermelho e andar com saco às costas distribuindo presentes. Pois sou um fracasso, embora em tese deveria ser um Noel de responsabilidade, já que tenho um encanto especial pela data e gosto de crianças. Mas tudo que existe de poesia numa das mais bonitas lendas do mundo moderno, tenho conseguido destruir. Comigo as crianças descobrem que o bom velhinho é uma peta inventada pela família. Em primeiro lugar, acho eu, é porque normalmente o Papai Noel tem de aparecer já meio no começo da noite, que é quando os novinhos já começam a ficar com um pouco de sono, e a natural ansiedade infantil já está começando a ficar insuportável e os pais não aguentam mais as brigas dos priminhos e amigos, o futebol na sala e a bagunça geral na casa, incluindo a destruição total de algumas valiosíssimas peças de decoração que vão de autênticos bibelôs da bisavó a miniaturas da Torre Eifell made in China. À esta altura a vítima daquele ano, o Papai Noel, ainda está vestido como paisano, já entornou todas e mal se lembra do nome de todos os sobrinhos. Em alguns casos, sente até saudades da Lapônia, que apesar de frio tem apenas a companhia dos anões fabricantes de brinquedos, classe profissional que, tirante a mania de cantar músicas de Walt Disney durante o trabalho, não perturbam o silêncio que atravessa o ano. E, no meu caso, quando chega a hora de vestir a fantasia, o calor já está absurdo (moro no Rio de Janeiro) e o tecido do uniforme é o mais vagabundo que existe, além da bota de gari da prefeitura, vários números menor, e a barba que é grudada na própria barba natural com o que estiver à mão, e pinica como o diabo, além de jamais querer ficar no lugar. Daí alguma tia segura na sua mão e grita para as crianças: “olha quem chegou!” e lhe joga num turbilhão de histéricos que lhe puxam as calças, desarrumam o dolmã, esticam a barba e lhe dão tapas, como se esta fosse uma maneira engraçada de lhe dar as boas-vindas. Enrolando as palavras, graças à longa viagem desde as terras nórdicas e os litros de vodka consumidos, você começa a distribuir os videogames, tablets, iPhones e outros ingênuos brinquedos do mundo moderno. A sorte é que cada um que recebe seu mimo vai se afastando para curtir o que ganhou, dando ao pobre Noel a oportunidade de respirar um pouco e entornar, sob o olhar reprovador de sua mulher, mais umas doses de vodka e fazer uns ohohhos! que a você mesmo soam ridículos. Acontece que não há mais novidades nos presentes de Natal. Não existem mais carrinhos de bombeiros, aviõezinhos à pilha nem revólveres, embora o Bolsonaro seja a favor que nos próximos Natais na lista de presentes estejam incluídas pistolas automáticas e semimetralhadoras porque é na terna infância que se treina o cidadão. Mas esta falta da surpresa, pois até minha neta de 2 anos sabe exatamente o que quer e o endereço do site que vende, sobra ir encher o saco do Papai Noel, vazio de presentes à esta altura, mas já à disposição para ser aporrinhado. Pois bem, no Natal passado eu resolvi me livrar daquela encrenca e decidi ser um Papai Noel para jamais ser cogitado novamente. E entornei muito mais do que devia. Na Rua da Alfândega comprei um sinão de arrebentar os tímpanos do quarteirão inteiro e incorporei um Papai Noel mal-humorado, dizendo que brigou com as renas, que o Rudolf estava cada vez mais metido à besta, que o trenó tinha sido multado e que eu tive de subornar o guarda para chegar na casa. E o fiz com a linguagem mais grosseira, mais sem humor e bondade que encontrei, reclamando de tudo, incluindo a TV Globo, os resultados das eleições e o trânsito. Entusiasmado, critiquei os vestidos de algumas tias e pedi um hambúrguer para comer e um uísque legítimo para dar uma folga à Vodka. Deus me perdoe, mas sobrou alguns pontapés (de leve, de leve) em alguns pimpolhos, um tapinha na cabeça de um mais chato e um vá tomar no cu para um semiadolescente que resolveu me chamar de Papai Noel viado. Conclusão: neste Natal não se cogitou em outro Papai Noel. Pior do que isso, veio vizinho participar da festa. Tive medo de exagerar mais ainda, promover um escândalo e ser eleito vereador. Afinal, as crianças parecem estar cansadas da velha geração de Noéis. Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa e da Approach Comunicação, radialista, escritor, editor e professor lulavieira@grupomesa.com.br jornal propmark - 24 de dezembro de 2018 29

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